“É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante”, disse Friedrich Nietzsche. É exatamente isso que percebo toda vez que Demna Gvasalia, atual diretor criativo da Gucci, apresenta uma nova coleção.
Que o brilho foi um elemento constante nas peças, não temos dúvidas. Mas, além dele, outros códigos de exagero dominaram a passarela: couro, peles e animal print. A exibição das peças core da marca durante o desfile Gucci Cruise, neste sábado, na Times Square, em Nova York, deixou claro que Demna trabalha para inaugurar uma nova fase da maison, tal qual Tom Ford conseguiu. Uma estética entre o Mob Wife, o Vamp Glam e o estilo do italiano americano, se é que isso é possível.
Do floral ao bambu, a intenção do estilista era a de construir um guarda-roupa completo para suas clientes. Vejo um interesse evidente em manter a marca comercial e competitiva. Não parecia o desenvolvimento de uma ideia aleatória. Era um statement. Estas são as peças que um(a) cliente Gucci deve ter: do trench clássico ao conjunto acetinado de blazer e calça revisitado, da blusa básica ao vestido de noite elegante.
Tudo me lembrou muito House of Gucci, não à toa, uma referência direta ao glamour e à elegância italianos unidos à fantasiosa história da família fundadora da marca.
A genialidade de um estilista está justamente em mesclar sua própria assinatura ao DNA de uma marca, e Demna parece flutuar com facilidade sobre essa ideia. É possível olhar para uma peça da marca e reconhecer imediatamente a linguagem do criador: as calças com zíper de um lado ao outro, a bolsa em formato de embalagem de confeitaria, a estola gigante substituindo o casaco ou o puff coat que envolve o corpo. Então sim, é possível.
E mesmo que a estética dos modelos possa parecer conceitual demais, com maquiagem esfumada exagerada, a escolha de diferentes silhuetas e celebridades como Tom Brady e Paris Hilton, parece comunicar que as roupas em si permanecem extremamente usáveis para a grande massa.
Prevejo, em breve, versões no varejo de muitas das peças apresentadas. E talvez até a retomada do desejo desenfreado dos fashionistas pela marca, como aconteceu na era de Alessandro Michele. Mas, desta vez, com um pouco mais de classe.



